por Ronaldo Bressane

A volta do Sosseguim

Sete anos levou Junio Barreto para espantar a “maldição do segundo disco”, esse clichezão da crítica musical. Espantou do jeito mais solar que podia. Afinal, o chamado Caymmi de Caruaru – pela voz grave e pela lentidão ao compor – também passou um bom tempo espantando umas e outras desilusões. Quarou a dor no varal: sobrou só o sumo do sangue derramado, virada a mágoa em magia. Pacificado, não por acaso o nome do álbum é Setembro, mês em que o sol volta de longo inverno.
Se a música de Junio aperfeiçoou harmonia e melodia, tornando-as mais intrincadas mas também mais leves, sua poética ficou mais paradoxal. Amante dos diminutivos, o Sosseguim até que não abusa das miniaturas neste álbum, preferindo largar a notória timidez para abraçar termos grandiosos como “império”, “glória” e “paraíso”. E embora a sintaxe das frases seja rebuscada, lembrando Guimarães Rosa e Manoel de Barros, seu vocabulário é naturalista, mínimo, léxico de poeta árcade: a onipresente luz da manhã, o sol, o mar, os ribeiros, a chuva, as matas, os coqueiros, as areias, as tardes serenas, as flores – e, contraditório como o afrosamba se renova no contato com o manguebeat, um jardim elétrico pode rimar com um jardim imperial.
Coisa fina, burilada por Junio e lavrada na bateia de Pupillo, um dos maiores bateristas do Brasil, aquele mesmo, da Nação Zumbi, agora amadurecido como produtor. Pupillo e seu gêmeo, o baixista Dengue, ocupam quase todas as faixas, estreladas ainda por belezas como as vozes de Céu, Marina de la Riva e Luiza Maita, o violão de Seu Jorge, os teclados de Chiquinho e Victor Araújo, as guitarras de Gustavo Ruiz e Junior Boca, a Orquestra Experimental de Cordas e a banda Mombojó, entre muitos talentos da nova música contemporânea brasileira. Tudo forma um conjunto orgânico, tudo se parece com Junio Barreto e também com o samba atemporal, canções que ouvimos como se existissem aí há tanto tempo – como todo setembro, quando chega, depois de tanta espera, espantando o frio com as asas das aleluias.
FAIXA A FAIXA
“Serenada solidão”, samba que abre o álbum, é feliz mas sem apelar – a jangadeira é pontuada por teclados de alta madrugada de Vitor Araújo, guardando um leve pique cafuçu notado na guitarra dedilhada de Gustavo Ruiz. Finaliza com sabedoria de quem passou a noite em claro: “Resta aguardar a alvorada em mim”.
A marchinha quase frevo “Jardim Imperial” informa do abalo que a moça causou no poeta – uma tal “formosa dona dos estragos meus”. É talvez a única canção
melancólica do disco, e a mais direta a tocar na questão da dor de cotovelo, “suprema provação” que nasce da “enganadora tentação”.
A faixa-título, que traz o tal “jardim elétrico”, tem ótimo riff de guitarra de Junior Boca e teclados a cargo de Chiquinho (Mombojó). Em alguns aspectos “Setembro” lembra os ácidos afrosambas que populavam o primeiro disco do Sosseguim. Alguns dos mais psicodélicos versos de Junio estão aqui: “Teu corpo luava ouro/ nos banhados que a chuvinha fez/ nas lavadas que ramalha a flor/ nos setembros de chegar/ Tu reinas vasta nas cheias de cada maré/ Tu raias do céu que enfeita a manhã/ És flecha soltada do aroma da mata/ Clareia dos olhos, candeia medonha”.
Ornado pelo duo de trombones de Misael França e Zilmar Medeiros, que lembra a elegância das composições de Moacir Santos, além do luxuoso trio formado por Céu, Marina de la Riva e Luiza Maita, o lento samba bluesy “Rios de passar” tem o quarteto de versos mais brilhante do álbum: “Acorda, pedra amorosa/ Na glória a alma esquece a dor/ E a rosa que plantasse ontem/ enfeita a festa de outro amor”. É pra morrer, nego.
O arranjo sofisticado, circular, de “Noturna”, lembra que, ao contrário do primeiro álbum, neste Junio quase não usa refrões. O cinematográfico samba-valsa, talvez um dos arranjos mais classudos de um disco já classudo demais, traz a Orquestra Experimental de Cordas, o piano e o Casiotone de Vitor Araújo.
Em “Fineza”, em que Junio se aproxima de Chico Buarque, inclusive no timbre de voz, Seu Jorge surge com um violão base bacanão, mais as vozes do trio calafrio supracitado, além dos teclados e metalofone de Dudu Tsuda. Puladinho, o samba traça o passeio do sol no céu. Isso lá é tema pra canção, mago?
Outra faixa cafuçu é a semiciranda “Gafieira da maré”, que saúda a musa que “chegou como as ondas do mar”. O quase-refrão lembra “Bicho do mato”, de Jorge Benjor e certo samba de Tamba Trio, bem como a pilantragem de Simonal. Segue a tradição marinheira de Junio, o caruaruense sempre com saudade da praia.
Seguindo o passeio pela rua da luz vermelha vem o surf rock brega iê-iê- iê “Passione”, parceria com de Junio com Jorge Du Peixe sobre a base levada pelo Mombojó (destaque para o teclado de Chiquinho e a guitarra de Felipe S).
A instrumental “Vamos abraçar o sol” é tecida de uns pá-pá-pás típicos do sambacana dos anos 60. Forte candidata a trilha sonora do árido movie pernambucano.
E então… “Quando alvorada em meus olhos se fez/ refletindo a mais bela manhã”, versos típicos de Cartola, Lupiscínio, Nelson: “Meu céu razão precisa/ realeza de guiar/ em mar de vagar deserto”, prossegue o Sosseguim. Na líquida “Alento da lagoinha”, Junio Barreto encerra seu segundo álbum com um arranjo minimalista – só voz, piano de Vitor Araújo e bateria de Pupillo –, elegância de alvorada a alvorada.


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